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19/02/2014 voltar

Atendimento odontológico aos portadores de diabetes

Imagem retirada de http://www.odontomagazine.com.br/2014-02-atendimento-odontologico-aos-portadores-de-diabetes-12366
Imagem retirada de http://www.odontomagazine.com.br/2014-02-atendimento-odontologico-aos-portadores-de-diabetes-12366
Odonto Magazine - Estudos indicam que os primeiros sintomas do diabetes foram registrados no século II. A OMS estima uma expansão considerável de portadores da doença até 2030. A Odontologia brasileira está preparada para este iminente crescimento?
Alexandre Fraige - O diabetes mellitus (DM) é a desordem metabólica mais comum, e sua incidência vem aumentando drasticamente nos últimos anos, tanto no Brasil como no mundo todo, principalmente devido ao envelhecimento da população, à aquisição de hábitos alimentares não saudáveis e ao sedentarismo. Dados da International Diabetes Federation (IDF) mostram um aumento entre 30% e 40% na incidência nos EUA e números semelhantes no Brasil.
A mesma entidade estima que a prevalência de DM na população seja de cerca de 14 milhões de brasileiros, sendo que metade desse número não é diagnosticada e, consequentemente, não é tratada.
É preciso fazer uma distinção entre os pacientes portadores de diabetes tipo 1 e tipo 2. Os pacientes tipo 1 somam apenas 10% do total de portadores de DM e, esses são de controle metabólico mais complexo e mais propensos a intercorrências durante tratamentos odontológicos, sendo recomendável que sejam tratados por especialistas. Pacientes tipo 2 têm maior estabilidade metabólica e, consequentemente, menor propensão a intercorrências.
Sendo assim, a Odontologia brasileira está, sim, preparada, pois atingiu nível de reconhecimento internacional nos últimos anos, habilitando o cirurgião-dentista atualizado a tratar com segurança os pacientes portadores de DM.



Odonto Magazine - Segundo o Ministério da Saúde, o diabetes foi responsável por mais de 470 mil mortes em todo o Brasil entre 2000 e 2010. Como a Odontologia pode contribuir para reverter este quadro?
Alexandre Fraige - Além da quantidade expressiva de mortes devido a complicações da doença, existe também o impacto financeiro e social da patologia. Só em 2012 os EUA gastaram US$ 245 bilhões com tratamento da doença e suas complicações. O impacto social se traduz nas amputações, cegueiras precoces, entre outras complicações, retirando milhões de pessoas da força de trabalho de nosso país.
O cirurgião-dentista, como profissional de saúde, possui papel fundamental no diagnóstico precoce do DM ao encaminhar o paciente ao médico especialista. Tem também papel protagonista no manejo clínico-cirúrgico desse paciente, participando ativamente do controle de complicações bucais do DM, aconselhando-o quanto ao controle glicêmico, à aderência ao tratamento médico e odontológico e, assim, preservando a saúde bucal dessa população.

 

Odonto Magazine - Uma pesquisa desenvolvida pelo Ministério da Saúde divulgou uma mudança negativa no regime alimentar tradicional dos brasileiros, desde a década de 1970. Este novo perfil alimentar contribui para o agravamento do diabetes, uma das doenças que mais mata no Brasil e no mundo. Como o cirurgião-dentista deve agir quando se trata da conscientização de seus pacientes sobre a alimentação adequada?
Alexandre Fraige - A alimentação adequada desses pacientes deve ser individualizada pelo profissional de nutrição e varia de paciente a paciente, mas, de modo geral, o dentista deve orientar o paciente a seguir a alimentação hipossódica, pobre em carboidratos e açúcares, priorizando fibras.
Devemos lembrar que, a alimentação adequada de nada vale se não há função mastigatória nessa população. O dentista tem o dever de reabilitar o paciente o quanto antes, a fim de possibilitar o mesmo a seguir as recomendações nutricionais.

 

Odonto Magazine - Segundo a International Diabetes Federation (IDF), 50% das pessoas com diabetes desconhecem ser portadoras da doença. Como a avaliação bucal pode chegar ao diagnóstico?
Alexandre Fraige - A doença periodontal é a 6ª complicação clássica da DM, sendo presente em torno de 40% dos portadores da doença, além da presença da secura bucal e de infecções oportunistas, como candidíases e herpes simples. A avaliação destas manifestações, associadas à boa anamnese e à coleta de informações sobre fatores de risco do paciente, podem levar o dentista a suspeitar da presença patologia e, consequentemente, a pedir exames diagnósticos, como glicemia em jejum e, mais atualmente, a hemoglobina glicada.

 

Odonto Magazine - Quais são as doenças bucais mais comuns nos portadores de diabetes? Como o profissional de saúde bucal deve agir para monitorar a continuidade do tratamento?
Alexandre Fraige - Além da complicação clássica, que são as periodontopatias, o portador de DM também apresenta a xerostomia, que leva a problemas nutricionais, dificultando de sobremaneira a mastigação e deglutição de alimentos. Podemos citar também as infecções oportunistas, como a candidíase e lesões por herpes simples.
O profissional deve estar atento tanto às manifestações bucais quanto ao controle metabólico do paciente, pois algumas destas manifestações cessam quando o paciente atinge um bom controle do DM.

 

Odonto Magazine - Dados da IDF - International Diabetes Federation, relativos a 2012, apontam que o diabetes tipo 2 afeta mais de 371 milhões de pessoas no mundo. Existe um protocolo determinado pelas autoridades em Odontologia para o atendimento odontológico aos pacientes portadores da doença?
Alexandre Fraige - Não existe um protocolo ou um valor específico de glicemia para o atendimento odontológico de portadores de DM. O que é recomendado é a individualização do tratamento odontológico para cada paciente, observando se o mesmo apresenta complicações microvasculares ou macrovasculares, tais como insuficiência renal, revascularizações cardíacas extensas e hipertensão arterial sistêmica, entre outras, e, assim, adaptar o procedimento à condição do paciente no momento da consulta.
Uma boa fonte de pesquisa e recomendações clínicas para o tratamento odontológico em DM pode ser encontrada no periódico da American Dental Association (ADA) e em bases de dados conhecidas, como PUBMED. Vale a pena lembrar, que estes pacientes fazem uso de múltiplos medicamentos e é boa prática clínica colher todas as informações possíveis, a fim de evitar interações medicamentosas.

 

Odonto Magazine - Quais são os cuidados especiais que os portadores de diabetes devem ter para uma boa saúde bucal?
Alexandre Fraige - Os pacientes portadores de DM devem ser disciplinados para o bom controle metabólico, e isso deve refletir na higiene bucal, em que o mesmo deve seguir os três passos da higiene bucal: escovação + fio dental + bochecho com colutório adequado.
O paciente tem que ser consciente de que essa é a melhor maneira de conservar a saúde da boca de maneira eficaz.

 

Odonto Magazine - O cirurgião-dentista precisa manter um bom relacionamento com a equipe multidisciplinar envolvida no cuidado ao paciente portador de diabetes. Como essa relação pode prevenir ou minimizar complicações no tratamento do paciente com a patologia?
Alexandre Fraige - O tratamento do portador de DM é multidisciplinar, obrigatoriamente. Isso é um fato, fruto de anos de pesquisa e prática clínica. O bom relacionamento com os demais profissionais envolvidos no tratamento de DM, como os médicos endocrinologistas e cardiologistas, educadores físicos, nutricionistas e enfermagem vai potencializar o efeito de cada terapêutica instituída ao paciente e, globalmente, acelerar a remissão de complicações da DM. Consequentemente, há uma aceleração na conclusão do tratamento global do paciente.

 

Odonto Magazine - O diabetes gestacional vem ganhando cada vez mais destaque nas pesquisas relacionadas à saúde da mulher. Por não apresentar sintomas, a condição desperta o interesse da classe médica e odontológica. Como o dentista deve agir durante o tratamento odontológico das gestantes portadoras da doença?
Alexandre Fraige - O estado de gravidez sempre suscita cuidados especiais, ainda mais quando associado a DM Gestacional. De maneira geral, para o primeiro trimestre (uma -12 semanas), recomenda-se que as pacientes sejam agendadas para avaliar sua saúde bucal, para informá-las das mudanças que devem esperar durante a gravidez e discutir como evitar problemas bucais característicos do estado gravídico que podem surgir a partir dessas mudanças. Não é recomendado que procedimentos invasivos eletivos sejam feitos neste momento.
A preocupação em fazer procedimentos durante o primeiro trimestre é duplo. Primeiro, o desenvolvimento da criança está no estágio da organogênese, sendo o risco oriundo de agentes teratogênicos. E, em segundo lugar, durante o primeiro trimestre, é fato conhecido que uma em cada cinco gestações passa por abortos espontâneos.
No segundo trimestre, a organogênese está completa e o risco para o feto é baixo. A mãe também teve tempo para se adaptar à gravidez e o feto não tem um tamanho potencialmente desconfortável, que tornaria mais difícil para a mãe permanecer imóvel por longos períodos.
O posicionamento da grávida é importante, especialmente durante o terceiro trimestre. O útero se expande com o crescimento do feto e a placenta, que vem assentar diretamente sobre a veia cava inferior, veia femoral e a aorta. Se a mãe é posicionada em decúbito dorsal para o procedimento, o peso do útero grávido poderia aplicar suficiente pressão para impedir um fluxo de sangue através destes grandes vasos e para causar uma condição que é chamada de hipotensão supina. Nesta condição, reduz-se a pressão arterial secundária a impedido fluxo de sangue, o que provoca uma "quase-síncope". Esta situação é facilmente sanada por um posicionamento adequado da paciente no seu lado esquerdo e elevando a cabeça da cadeira, para evitar a compressão dos vasos sanguíneos principais.
O dentista não deve hesitar em consultar o (a) obstetra da paciente sempre que surgir alguma dúvida sobre a segurança de um procedimento, particularmente se existem circunstâncias especiais que estão associadas com a gravidez.
Para o terceiro trimestre (25-40 semanas), o crescimento fetal continua e o foco da preocupação agora é o risco para o processo de nascimento, além da segurança e do conforto da grávida (por exemplo, o posicionamento da cadeira e evitar medicamentos que afetem o tempo de sangramento). É seguro executar um tratamento odontológico de rotina no início do terceiro trimestre. Mas, a partir de meados do terceiro trimestre, os tratamentos odontológicos invasivos devem ser evitados.

 

Odonto Magazine - Existem restrições de medicamentos receitados pelos cirurgiões-dentistas ao paciente portador de diabetes?
Alexandre Fraige - Existe uma grande preocupação na Odontologia quanto ao uso indiscriminado de medicamentos em geral, principalmente no uso de antibióticos. Pacientes portadores de diabetes são polimedicados, geralmente para o próprio controle glicêmico e para controle pressórico. Além desses medicamentos, o paciente pode se apresentar em uso de antiagregantes plaquetários e anticoagulantes, além de outros medicamentos específicos para o controle de complicações crônicas do DM.
Infelizmente, muitos dos medicamentos que o dentista prescreve rotineiramente podem interagir com os medicamentos do paciente, por isso, a coleta de todas as informações sobre medicações, mesmo que os fitoterápicos, deve ser feita cuidadosamente e depois de avaliadas possíveis interações.

 

Odonto Magazine - Como o profissional de saúde bucal deve se comportar ao se deparar com uma complicação no tratamento do paciente portador de diabetes?
Alexandre Fraige - Uma das principais complicações enfrentadas pelos dentistas durante o atendimento odontológico a pacientes portadores de DM é a crise hipoglicêmica, que se não manejada corretamente pode levar ao coma e óbito. O primeiro passo para controlar a crise é saber identificá-la. A crise ocorre quando os níveis de glicemia capilar estão abaixo de 50/70 mg/dl, e o paciente pode apresentar os seguintes sinais e sintomas: ansiedade, taquicardia, fraqueza, sudorese, confusão mental, incoordenação e tremores.
Os sintomas tornam-se mais severos quando a glicemia é inferior a 40 mg/dl, podendo haver perda de consciência e convulsão.
O segundo passo é contornar a crise hipoglicêmica. Se o paciente estiver consciente, administre três a quatro sachês de gel de glucose ou meia lata de refrigerante normal. Meça a glicemia capilar em 15 minutos. Assim que a glicemia ultrapassar os 60 mg/dl, o paciente deve ingerir algum alimento fonte de proteína e carboidrato. Lanches ricos apenas em carboidratos levarão o paciente novamente à hipoglicemia. Caso o paciente esteja inconsciente, o cirurgião pode lançar mão de glucagon por via intramuscular ou subcutânea. O paciente deve recobrar a consciência em 15 a 20 minutos.

 

Odonto Magazine - Como as atuais tecnologias em destaque no mercado podem auxiliar o cirurgião-dentista no tratamento odontológico do paciente portador de diabetes?
Alexandre Fraige - As tecnologias disponíveis no mercado visam otimizar a terapêutica odontológica, tornando-a menos invasiva, mais rápida e com maior previsibilidade de resultados. Cabe ao dentista, optar pela melhor técnica indicada ao seu paciente e se lembrar de sempre ter à mão métodos de monitorização de DM, com o uso de glicosímetros.



Odonto Magazine - Ser diabético é uma condição controlável. Como a questão da saúde bucal aliada à qualidade de vida deve ser abordada pelos profissionais de saúde bucal?
Alexandre Fraige - A saúde bucal está diretamente ligada à qualidade de vida nestes pacientes, e isso deve ser o mote principal da relação profissional-paciente. Essa relação deve ser construída e mantida através de comunicação direta com seu paciente, conscientizando-o sobre como o DM é perfeitamente controlável, assim como sua saúde bucal. O profissional deve focar na pessoa e não na doença.

Fonte: Odontomagazine, escrita por Vanessa Navarro